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CONCEITO · PROPÓSITO E SENTIDO

Propósito e sentido

O porquê que sustenta o como

Ilustração de uma pessoa em silhueta caminhando no alto de uma colina em direção a uma espiral de luz dourada num céu noturno estrelado

Você pode aprender a revisar as explicações que dá para os próprios fracassos. Pode distinguir com precisão o que depende de você e o que não depende. Pode soltar o fruto da ação, sustentar o esforço por anos e confiar na própria capacidade de agir. E pode, ao final de tudo isso, continuar sem saber por que está fazendo o que faz.

No livro Soberania interior, essa pergunta chega por último, depois de seis lentes dedicadas ao como. Escrevo ali que a soberania interior, “entendida apenas como domínio técnico sobre a própria mente, é uma conquista real, mas incompleta. Falta ainda saber para onde toda essa soberania deveria apontar”. A sétima lente, a do sentido, trata dessa direção.

Frankl e a vontade de sentido

O psiquiatra vienense Viktor Frankl fundou o que ficou conhecido como a terceira escola de psicoterapia de Viena. Freud via a busca do prazer como motivação central do ser humano. Adler via a busca de poder e superioridade. Frankl propôs uma terceira força, a vontade de sentido, a necessidade de encontrar significado na própria existência.

Ao contrário do que muita gente imagina, a ideia não nasceu nos campos de concentração. Frankl já trabalhava nela no fim dos anos 1920, ainda estudante de medicina, atendendo adolescentes em risco de suicídio. Os campos deram a ele a prova mais extrema da teoria. Deportado para quatro campos entre 1942 e 1945, incluindo Auschwitz, ele perdeu o pai, a mãe, o irmão e a esposa grávida. Observou que os prisioneiros capazes de identificar um sentido para sobreviver, um trabalho inacabado, uma pessoa amada à espera, uma tarefa que só eles poderiam cumprir, suportavam privações que destruíam companheiros fisicamente tão fortes quanto eles. Frankl resumiu essa observação com uma frase de Nietzsche. Quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como.

Conto no livro um detalhe que costuma passar despercebido. Frankl chegou a Auschwitz com o manuscrito de um livro escondido no forro do casaco e o perdeu no confisco das roupas. Meses depois, doente de tifo em outro campo, começou a reconstruir o texto de memória em pedaços de papel. Mais tarde, diria que a vontade de reescrever aquele livro foi uma das coisas que o mantiveram vivo. Era um sentido concreto e específico para atravessar mais um dia, muito diferente da ideia abstrata de que é importante ter objetivos.

Libertado, ele ditou em nove dias o livro publicado em português como Em busca de sentido. Ali está a base da logoterapia, que em vez de escavar o passado em busca de traumas orienta o olhar para uma tarefa ainda por cumprir. Frankl esteve duas vezes no Brasil formando logoterapeutas, e pesquisadores brasileiros ainda usam os instrumentos derivados da obra dele para estudar a relação entre sentido, desempenho e bem-estar.

Três caminhos para o sentido

Frankl falava menos em propósito, uma direção fixa e duradoura, e mais em sentido, algo que pode surgir num único instante. Ele descreveu três caminhos. Os valores criativos tratam do que você dá ao mundo, um trabalho, uma obra, uma causa. Os valores experienciais tratam do que você recebe do mundo, o amor por outra pessoa, a beleza de uma paisagem, uma obra de arte. Os valores atitudinais tratam da postura que você escolhe diante de um sofrimento que não pode ser desfeito.

No livro, chamo o terceiro caminho de o mais democrático dos três, porque nenhuma circunstância externa consegue bloqueá-lo. Frankl ilustrava isso com o caso de um médico que chegou arrasado pela morte da esposa. Frankl perguntou o que teria acontecido se ele tivesse morrido primeiro. O homem respondeu que ela teria sofrido terrivelmente. A dor dele passou a ser também o preço que pagava para poupá-la desse sofrimento. A dor não desapareceu. Ganhou a companhia de um sentido que antes não estava visível.

Frankl também insistia que o sentido é situacional. Não existe o sentido da vida, no singular e definitivo. Existe uma sucessão de sentidos, cada um respondendo ao que uma fase da vida está pedindo. O propósito de alguém aos vinte e cinco anos, construindo uma carreira, pode ser muito diferente do propósito da mesma pessoa aos sessenta.

A ausência de sentido também tem nome na obra de Frankl. Ele chamou de vazio existencial a sensação difusa de que a vida não aponta para lugar nenhum, mesmo quando nada de errado acontece por fora. O Teste do Propósito de Vida, criado nos anos 1960 e validado em dezenas de países, incluindo o Brasil, mostra que pontuações baixas nesse instrumento andam junto com mais sintomas depressivos e mais comportamentos de risco, por mais confortáveis que sejam as circunstâncias da pessoa.

Yalom e o sentido como consequência

O psiquiatra Irvin Yalom, da Universidade Stanford, organizou a psicoterapia existencial em torno de quatro preocupações últimas do ser humano. A morte, a liberdade, o isolamento e a falta de sentido. Ele dedicou boa parte de Existential psychotherapy, publicado em 1980, à quarta delas, e chegou a uma conclusão que complementa Frankl.

Para Yalom, a busca de sentido funciona como a busca do prazer. Quando vira o alvo direto da atenção, ela escapa. O sentido aparece como consequência do engajamento em algo, seja uma obra, uma relação, uma causa ou um ofício. Por isso a resposta terapêutica que ele propunha para a falta de sentido era o engajamento, e não uma reflexão interminável sobre o sentido em si. Yalom também distinguiu o sentido cósmico, a ideia de que o universo inteiro tem um plano que inclui você, do sentido terreno, aquele que você constrói com o que faz e com as pessoas a quem se dedica. O segundo está ao alcance de qualquer pessoa, com ou sem resposta para o primeiro.

Isso desfaz uma armadilha que vejo com frequência. A pessoa adia a vida até encontrar o propósito, como se ele fosse chegar pronto, numa iluminação súbita. No livro, chamo a atenção para o extremo oposto da mesma armadilha, a exigência de que cada minuto da existência esteja carregado de significado grandioso, sob pena de a vida inteira parecer desperdiçada. Frankl nunca defendeu isso. A clínica dele lidava quase sempre com sentidos modestos, um ofício bem executado, uma relação cultivada com afeto, uma tarde aproveitada com atenção.

Marco Aurélio e o dever de cada dia

A tradição estoica tira do propósito qualquer aura de epifania. Para os estoicos, o sentido está na ação correta, no cumprimento diário do dever moral e cívico e na distinção rigorosa entre o que depende e o que não depende de nós, a dicotomia do controle que discuto no artigo sobre locus de controle. O propósito, para eles, é viver de acordo com a natureza, e a natureza humana é racional e social.

Marco Aurélio governou Roma durante quase duas décadas de guerras e de uma epidemia que matou milhões de pessoas. Escreveu boa parte das Meditações em tendas de acampamento, entre uma batalha e outra. O texto não busca uma grande missão. No início do quinto livro, ele se repreende por querer ficar na cama e lembra a si mesmo que levanta para fazer o trabalho de um ser humano. No sexto, escreve que o que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha. O sentido estava no dever diante dele, e o dever estava ligado ao bem da comunidade.

No livro, comparo a resposta de Marco Aurélio à perda com a de Frankl. Marco Aurélio perdeu a maioria dos filhos que teve, quase todos ainda crianças. Ele não procurou um sentido escondido dentro dessa dor. Continuou cumprindo o próprio dever, como pai enquanto durou e como imperador enquanto a vida seguisse. Frankl encontra sentido na resposta escolhida diante da dor. Marco Aurélio, como escrevo no livro, “recusa-se a deixar que a dor interrompa um sentido que já existia antes dela”. Os dois caminhos chegam a um lugar parecido, a serenidade diante do que não pode ser mudado.

O sentido no bem-estar, segundo Seligman

A psicologia positiva deu ao sentido um lugar formal na ciência do bem-estar. Em Flourish, de 2011, Martin Seligman propôs o modelo PERMA, com cinco elementos. Emoções positivas, engajamento, relacionamentos, sentido e realização. O M do modelo vem de meaning, e Seligman o define como pertencer e servir a algo que você considera maior do que você mesmo.

O PERMA ajuda a separar coisas que costumam ser confundidas. Uma vida pode ter muito prazer e pouco sentido, ou muito sentido e pouco prazer. Cuidar de um pai doente raramente é agradável e costuma ser profundamente significativo. Os cinco elementos se reforçam, mas cada um precisa de atenção própria.

Pesquisas posteriores ajudam a entender como o sentido se forma. Michael Steger distinguiu a presença de sentido, a sensação já estabelecida de que a vida tem direção, da busca de sentido, o esforço ativo de procurá-la. Quem vive em busca constante costuma sentir menos presença. Mas um estudo que acompanhou as mesmas pessoas por várias semanas mostrou que, nos dias em que se dedicavam mais à busca, elas sentiam mais sentido no dia seguinte. Como escrevo no livro, o propósito funciona mais como uma direção geral de marcha, corrigida de tempos em tempos, do que como um destino alcançado uma vez.

Propósito nas organizações

Simon Sinek levou o tema para dentro das empresas com o círculo dourado, apresentado em 2009 numa palestra que se tornou uma das mais vistas da história do TED e no livro Start with why. O círculo tem três camadas. O que a empresa faz, como faz e por que faz. A maioria das organizações comunica de fora para dentro, começando pelo produto. As que inspiram, segundo Sinek, comunicam de dentro para fora, começando pela razão de existir. A frase que resume a tese é conhecida. As pessoas não compram o que você faz, compram o porquê de você fazer.

A ideia é útil para dar direção a uma equipe. Ela também tem limites. A explicação neurológica que Sinek oferece para o círculo é uma simplificação, e uma declaração de propósito escrita pela diretoria não produz sentido nas pessoas por decreto. No livro, observo que uma missão corporativa genérica costuma ter pouca força de inspiração, e que a dedicação espontânea de alguém tende a perder o sentido assim que vira meta cobrada e monitorada.

A pesquisa de Amy Wrzesniewski mostra onde o sentido no trabalho costuma nascer. Ela identificou três orientações, presentes em praticamente qualquer profissão. Há quem viva o trabalho como emprego, um meio de sustento. Há quem o viva como carreira, um caminho de ascensão. E há quem o viva como vocação, parte de algo maior. A orientação não depende do cargo nem do salário. Há auxiliares de limpeza hospitalares que tratam a própria função como vocação, cuidando dos pacientes muito além do que a tarefa exige, e médicos que contam os anos até a aposentadoria. Mais tarde, com Jane Dutton, Wrzesniewski descreveu o redesenho do trabalho, os pequenos ajustes que a própria pessoa faz para aproximar as tarefas do que considera significativo. Gestores que deixam espaço para esses ajustes colhem mais equipes com orientação à vocação do que gestores que impõem uma missão pronta.

No último capítulo do livro, conto a história de Patrícia, dona de uma pequena agência de marketing que perdeu o cliente responsável por quase sessenta por cento do faturamento. Depois da crise, ela passou a atender donos de pequenos negócios e, pela primeira vez em anos, viu de perto o efeito do próprio trabalho. Uma campanha bem-feita podia decidir se uma loja de bairro fecharia o ano no azul. O resultado passou a ter rosto. A crise respondeu a uma pergunta que o conforto do contrato antigo nunca a tinha obrigado a fazer, para que e para quem a agência existia.

Sentido em casa

O psicólogo William Damon, de Stanford, acompanhou 1.200 jovens durante cinco anos e encontrou um padrão. Os que desenvolviam um senso de propósito raramente chegavam a ele sozinhos ou numa epifania. Chegavam pela mão de um adulto que soube expô-los a uma necessidade real do mundo e depois recuar, deixando que eles decidissem se e como responder. Pais que impõem aos filhos os próprios sonhos não realizados prejudicam justamente essa construção.

Com crianças pequenas, o cuidado é outro. Felix Warneken e Michael Tomasello observaram que crianças de vinte meses ajudam espontaneamente um adulto que não alcança um objeto, e que passam a ajudar menos depois de serem recompensadas por isso. Mostrar à criança o efeito do que ela fez sobre os outros preserva o motivo que a levou a agir. Pagar por cada gesto ensina que ajudar é uma troca.

Uma prática a partir de Frankl

O desapego aos resultados ensina a soltar o fruto da ação. O sentido diz a que a ação serve. A frase de Frankl que abre o livro lembra que tudo pode ser tirado de uma pessoa, exceto a última das liberdades humanas, escolher a própria atitude em qualquer circunstância. Essa liberdade é o ponto de partida de qualquer propósito.

O propósito raramente chega pronto. Ele se forma a partir de sentidos menores, vividos com atenção, que vão se acumulando numa direção. Uma forma simples de começar usa os três caminhos de Frankl. Ao final desta semana, anote uma coisa que você deu ao mundo, uma coisa que você recebeu dele e uma postura que você escolheu diante de algo que não podia mudar. Repita o exercício por algumas semanas e observe para onde as anotações apontam.

Bibliografia

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