CONCEITO · LOCUS DE CONTROLE
Onde você coloca a causa do que acontece com você
Duas pessoas perdem o emprego na mesma semana, na mesma empresa, pelo mesmo corte de custos. A primeira conclui que o mercado está ruim, que a empresa foi injusta e que não há muito a fazer além de esperar. A segunda chega a uma conclusão diferente. Reconhece que o corte não dependia dela, mas passa a pensar no que pode fazer agora. Atualiza o currículo, procura antigos colegas, avalia uma mudança de área.
O fato é o mesmo. A leitura do fato é diferente. E essa leitura vai pesar mais nos meses seguintes do que o próprio fato.
A psicologia tem um nome para essa diferença. Locus de controle.
O conceito nasceu de uma observação de infância. Julian Rotter tinha 13 anos quando a crise de 1929 quebrou o negócio do pai. Ele reparou que pessoas atingidas pela mesma crise, pelos mesmos bancos quebrados e pelo mesmo desemprego reagiam de formas opostas. Algumas tentavam um negócio atrás do outro. Outras afundavam numa resignação da qual nunca mais saíam. Como conto no livro Soberania interior, essa lembrança ficou adormecida por duas décadas, até Rotter, já psicólogo, transformá-la em pergunta de pesquisa.
Em 1966, ele formalizou o conceito em um artigo que se tornou clássico, com uma escala de 29 pares de afirmações. Locus, em latim, significa lugar. A pergunta que o conceito responde é simples. Onde você coloca a causa do que acontece com você.
Pessoas com locus de controle interno tendem a acreditar que os resultados da própria vida dependem, em grande parte, de suas escolhas, do seu esforço e das suas ações. Pessoas com locus de controle externo tendem a atribuir esses resultados à sorte, ao destino, a outras pessoas ou a forças que estão fora do seu alcance.
Três observações ajudam a entender o conceito. A primeira é que ele não divide as pessoas em dois grupos. Ele descreve uma escala, e cada pessoa ocupa um ponto dela. A segunda é que o locus de controle pode variar conforme o domínio da vida. Alguém pode ter um locus interno no trabalho e externo na saúde ou nos relacionamentos. A terceira, e mais importante, é que ele é aprendido. O psicólogo Stephen Nowicki, que dedicou cinco décadas ao tema, mostra que o fator decisivo é a consistência entre ação e consequência. Crianças que crescem em ambientes onde o esforço produz resultados de forma previsível tendem a desenvolver um locus mais interno. Crianças criadas em ambientes imprevisíveis, em que a mesma atitude ora é premiada, ora ignorada, ora punida, tendem ao polo externo. O que foi aprendido pode ser revisto.
Em 1966, o mesmo ano do artigo de Rotter, o governo americano encomendou o maior levantamento educacional feito até então, com mais de seiscentas mil crianças. O Relatório Coleman procurava medir o efeito do orçamento das escolas sobre o desempenho dos alunos. O fator que mais se destacou foi outro. O quanto o aluno acreditava que o próprio esforço fazia diferença no resultado. Alunos com essa crença se saíam melhor do que colegas com recursos familiares muito superiores.
No livro Choice or Chance, de 2016, Nowicki reúne décadas de achados como esse. Um dos mais impressionantes vem do estudo ALSPAC, que acompanha milhares de famílias no Reino Unido desde os anos 1990. O locus de controle dos pais, medido ainda durante a gravidez, previu a frequência de problemas de comportamento dos filhos aos seis anos. Como escrevo no livro, crianças não aprendem locus de controle ouvindo um discurso sobre responsabilidade. Aprendem observando, repetidamente, como os adultos ao redor reagem aos próprios reveses.
Os exemplos estão em toda parte. O estudante que atribui a nota baixa ao professor “que não gosta dele” tem pouca razão para estudar de outro jeito. O que atribui a nota ao próprio método de estudo encontra algo para mudar. O paciente que vê a doença como uma questão de sorte segue o tratamento com menos regularidade do que aquele que entende o que depende dele. O pai que acredita que nada do que diz ao filho faz diferença tende a desistir da conversa.
Nos negócios, o padrão se repete. Em 1972, o furacão Agnes destruiu centenas de pequenos negócios na Pensilvânia. O pesquisador Carl Anderson acompanhou os proprietários nos meses seguintes. Os de locus mais interno buscaram financiamento, reorganizaram operações e negociaram com fornecedores, com menos estresse e recuperação melhor. Os de locus externo esperaram que a situação se resolvesse sozinha. A enchente foi a mesma para todos. Uma meta-análise publicada em 2006, com dezenas de estudos, confirmou a tendência no trabalho em geral. O locus interno anda junto com maior satisfação, melhor desempenho e menos estresse.
A crença sobre o controle muda o comportamento. Quem acredita que suas ações fazem diferença age mais, tenta outra vez quando falha e aprende com o erro. Quem acredita que nada depende de si tende a esperar.
Seria um erro concluir que tudo depende de você. Esse é o outro extremo, e ele também cobra um preço. No livro, descrevo cinco traços associados ao locus interno: responsabilidade, persistência, capacidade de adiar a gratificação, apetite por informação e resistência à coação. Cada um, levado ao extremo, se volta contra quem o carrega. Responsabilidade sem limite vira autoculpa. Persistência sem limite vira teimosia autodestrutiva. A pessoa que se responsabiliza por tudo carrega culpas que não são suas, se esgota tentando controlar o incontrolável e confunde esforço com resultado. A psicóloga Ellen Langer mostrou, ainda em 1975, que as pessoas superestimam com frequência o próprio controle sobre eventos que dependem do acaso. Essa ilusão produz decisões ruins e frustração.
O filósofo estoico Epicteto já distinguia, há quase dois mil anos, o que depende de nós do que não depende. Nossas opiniões, intenções e ações dependem de nós. O corpo, a reputação, os bens e as decisões dos outros não dependem inteiramente.
No livro Soberania interior, chamo de locus interno hipertrofiado a suposição de que, com esforço suficiente, o resultado desejado necessariamente vai aparecer. A dicotomia de Epicteto corrige esse risco sem abandonar a crença no próprio esforço. Ela torna a fronteira do que é interno mais estreita e mais precisa. Como escrevo no livro, “interno, para o estoico, não é ‘eu influencio o resultado’, mas ‘eu governo o meu julgamento e a minha ação presente, e nada além disso’. O esforço pertence a essa esfera interna. O resultado do esforço, não.”
A maturidade não está em acreditar que você controla tudo, nem em concluir que não controla nada. Está em reconhecer onde termina a sua influência e agir com sabedoria dentro desse limite. O complemento natural dessa ideia é o desapego aos resultados, tema de outro artigo desta série.
Um locus interno saudável, portanto, não nega as circunstâncias. Ele parte delas. O desempregado do início do texto não negou o corte de custos. Ele apenas se recusou a deixar que o corte decidisse o próximo passo.
Três expressões aparecem com frequência quando se fala em comportamento nas organizações. Accountability, proatividade e senso de dono. Elas costumam ser tratadas como competências separadas. Na prática, as três dependem da mesma base psicológica, o locus de controle interno.
Proatividade é agir antes que o problema exija. É a pessoa que percebe a goteira e chama o encanador antes da infiltração, que marca o exame antes do sintoma, que propõe uma solução antes de a reunião de crise ser convocada. Ninguém age por antecipação se acredita que o resultado não depende do que faz.
Accountability é responder pelo resultado depois que ele aconteceu. É dizer “isto ficou sob a minha responsabilidade e não saiu como deveria” e, em seguida, explicar o que será feito. Quem tem locus externo tende a transformar essa conversa em uma lista de culpados. O sistema falhou, o fornecedor atrasou, o cliente mudou de ideia. Todos os fatores podem ser verdadeiros. Nenhum deles responde pelo que a pessoa poderia ter feito.
Senso de dono é o vínculo psicológico com aquilo que se faz. Os pesquisadores Jon Pierce, Tatiana Kostova e Kurt Dirks chamaram esse fenômeno de propriedade psicológica. É a sensação de que algo é “meu”, mesmo sem ser meu no papel. O morador que cuida da área comum do condomínio, o voluntário que trata o projeto como se fosse dele, o profissional que se preocupa com o cliente depois de encerrada a entrega. Essa sensação só aparece quando a pessoa acredita que sua ação muda o destino daquilo que considera seu.
No livro, uso uma frase de trabalho para mostrar a diferença. “Perdemos o cliente porque o mercado está difícil” é diferente de “perdemos o cliente porque eu demorei demais para responder à proposta dele”. A segunda frase dói mais na hora, mas é a única das duas que permite aprender.
A relação entre os quatro elementos é de dependência. O locus interno é a crença. Proatividade, accountability e senso de dono são as formas que essa crença assume no comportamento. Por isso, cobrar accountability de quem tem locus externo raramente funciona. A cobrança é percebida como injustiça e produz defesa. O caminho mais eficaz é trabalhar a crença que sustenta o comportamento.
O locus de controle muda com a experiência. Algumas práticas ajudam nesse processo.
Se você quiser um ponto de partida, o diagnóstico gratuito de Locus de Controle disponível neste site ajuda a medir o seu padrão atual. O tema também é a base da palestra Protagonismo e Accountability.
As circunstâncias nem sempre dependem de você. O que você faz diante delas depende.
Anderson, C. R. (1977). Locus of control, coping behaviors, and performance in a stress setting: A longitudinal study. Journal of Applied Psychology, 62(4), 446–451. https://doi.org/10.1037/0021-9010.62.4.446
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Langer, E. J. (1975). The illusion of control. Journal of Personality and Social Psychology, 32(2), 311–328. https://doi.org/10.1037/0022-3514.32.2.311
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Nowicki, S. (2016). Choice or chance: Understanding your locus of control and why it matters. Amherst: Prometheus Books.
Nowicki, S., Iles-Caven, Y., Gregory, S., Ellis, G., & Golding, J. (2017). The impact of prenatal parental locus of control on children's psychological outcomes in infancy and early childhood: A prospective 5 year study. Frontiers in Psychology, 8, 1716. https://doi.org/10.3389/fpsyg.2017.01716
Pierce, J. L., Kostova, T., & Dirks, K. T. (2001). Toward a theory of psychological ownership in organizations. Academy of Management Review, 26(2), 298–310. https://doi.org/10.5465/amr.2001.4378028
Rotter, J. B. (1966). Generalized expectancies for internal versus external control of reinforcement. Psychological Monographs: General and Applied, 80(1), 1–28. https://doi.org/10.1037/h0092976