Passo boa parte do meu ano em salas de educação executiva. Quase todos os programas que conheço ensinam técnicas, ferramentas e modelos de gestão. Poucos se perguntam que tipo de pessoa aquela formação está ajudando a construir. Os gregos antigos colocavam essa pergunta no centro de tudo, e deram a ela um nome, paideia.
O filólogo alemão Werner Jaeger dedicou três volumes, publicados entre 1934 e 1947, a esse conceito. Na introdução de Paideia: a formação do homem grego, ele explica que a palavra não cabe em nenhum termo moderno. Civilização, cultura, tradição, literatura e educação capturam, cada uma, apenas uma parte do que os gregos queriam dizer. Paideia era o processo de formar o ser humano de acordo com um ideal, do mesmo modo que o oleiro modela a argila e o escultor trabalha a pedra. O que se educava não era uma habilidade isolada. Era a pessoa inteira.
O ideal que orientava essa formação tinha um nome, areté. A tradução mais comum é virtude, mas Jaeger mostra que o sentido original era mais amplo. Em Homero, areté significa excelência, a qualidade que faz qualquer coisa cumprir bem a sua função. Um cavalo veloz tem a areté do cavalo. Um guerreiro corajoso e hábil tem a areté do guerreiro.
Dois versos da Ilíada resumem o ideal homérico. No canto IX, Fênix lembra a Aquiles que foi encarregado de educá-lo para ser orador de palavras e realizador de ações. A excelência combinava o falar bem e o agir bem. No canto VI, Glauco conta que o pai o mandou à guerra com uma recomendação, ser sempre o melhor e superar os outros. Era uma ética aristocrática, voltada para a honra e para o reconhecimento público.
Hesíodo, poucas gerações depois, levou a areté para fora do campo de batalha. Em Os trabalhos e os dias, poema dirigido ao irmão Perses, ele escreve que os deuses puseram o suor diante da areté. A excelência deixava de ser privilégio do nobre que nasceu guerreiro e passava a estar ao alcance do camponês que trabalha a terra com disciplina e justiça. Jaeger considera esse deslocamento um dos momentos decisivos da educação grega.
O psicólogo Viktor Salis, que estudou a fundo a tradição grega, mostra como essa busca da excelência se traduzia em práticas. O athlos, palavra que nos deu atleta, era a luta em busca da areté. O melhor exemplo são os doze trabalhos de Hércules, em que o herói precisava vencer desafios externos e internos ao mesmo tempo para formar um caráter incorruptível. Nesses mitos, lembra Salis, a força física fracassa sempre que não está acompanhada da sabedoria. O ágon, a competição dos jogos olímpicos e de outros festivais sagrados, era uma forma de o jovem superar os próprios limites e mostrar que estava à altura do reconhecimento divino. E o ginásio, de gymnós, nu, era o lugar onde se aprendia a coragem de ser verdadeiro, de modo que o que se mostrava por fora correspondesse ao que se era por dentro.
Salis chama atenção para uma origem que esquecemos. A palavra escola vem do grego scholé, que significava ócio, o tempo livre das obrigações de sobrevivência. Para os gregos, esse tempo não era vazio. Era o tempo dedicado a conhecer a si mesmo e ao outro, a cultivar os próprios talentos e a pensar sobre a vida. Salis descreve uma etapa da formação, dos 14 aos 28 anos, voltada a esse conhecimento de si e do outro, e lembra que os simpósios na casa dos mestres continuavam ao longo de toda a vida adulta.
Os gregos também separavam dois tipos de trabalho. A douleia era o trabalho servil, imposto pela necessidade. O ergon era o trabalho criador, aquele em que a pessoa expressa o que tem de melhor e oferece isso aos outros e aos deuses. Para Salis, a perda dessa distinção empobreceu nossa ideia de trabalho e de lazer. Ele chega a afirmar que a paideia foi a única educação verdadeiramente continuada de que se tem notícia, porque nunca terminava com a juventude.
Uma observação de Salis me parece especialmente útil. Ele cita uma passagem atribuída a Nietzsche segundo a qual os gregos educavam primeiro o instinto e depois a razão. A formação começava pelo corpo, pela música, pela coragem e pelo afeto, e só mais tarde chegava ao argumento. Platão diria algo muito parecido.
No século V antes da era cristã, Atenas viu surgir os sofistas, mestres itinerantes que cobravam para ensinar a areté política, a capacidade de falar em público, convencer e ter sucesso na cidade. Protágoras, o mais famoso deles, sustentava que essa excelência podia ser ensinada. Sócrates aceitava a pergunta e mudava o foco. Para ele, a areté era uma forma de conhecimento, e a tarefa mais importante de uma vida era o cuidado da alma. Na Apologia, diante dos juízes que o condenariam à morte, ele diz que os acusadores podem matá-lo, mas não podem prejudicá-lo, porque o único dano verdadeiro é o que atinge o caráter. É a mesma passagem que, como mostro no livro Soberania interior, está na origem da dicotomia do controle que Epicteto formularia séculos depois.
Platão transformou essa intuição num projeto de educação. Rousseau escreveu no Emílio que A República não é um tratado de política, como pensa quem só lê os títulos, e sim o mais belo tratado de educação já escrito. Jaeger concorda e dedica a Platão boa parte do segundo volume da obra.
No livro VII da República, logo depois da alegoria da caverna, Platão define o que a educação não é. Ela não consiste em colocar a visão em olhos cegos, como prometem alguns. A capacidade de aprender já existe em cada pessoa. A educação é a arte de voltar a alma inteira na direção certa, para que ela deixe de olhar as sombras e passe a contemplar o que é real. Os gregos chamavam essa conversão de periagogé. O ponto de chegada é a ideia do Bem, que Platão chama de o maior dos aprendizados.
Platão também insistia no equilíbrio. Na República, a ginástica e a música precisam caminhar juntas. A ginástica sozinha embrutece, e a música sozinha amolece. Nas Leis, sua última obra, ele define a educação como a formação correta do prazer e da dor desde a infância, para que a criança aprenda a amar o que merece ser amado e a rejeitar o que merece ser rejeitado antes mesmo de ser capaz de entender as razões. Quando a razão chega, ela encontra afetos que já concordam com ela. É a mesma ideia que Salis encontra na educação grega do instinto.
No livro I das Leis, Platão separa a verdadeira paideia de outras formações. Educação, para ele, é a formação na areté desde a infância, que faz a pessoa desejar se tornar um cidadão completo, capaz de governar e de ser governado com justiça. Uma formação voltada apenas para ganhar dinheiro, para a força física ou para alguma habilidade técnica, sem inteligência e sem justiça, não merece esse nome.
A educação voltada para o bem tinha um destino, a eudaimonia. A palavra junta eu, bem, e daimon, a divindade ou o espírito que acompanha cada pessoa. Costuma ser traduzida como felicidade, mas o sentido grego está mais próximo de florescimento, de uma vida que se realiza plenamente. Para Platão, a pessoa justa, cuja alma está em ordem, é também a mais feliz, independentemente do que os outros pensem dela.
Aristóteles, aluno de Platão por vinte anos, deu ao conceito sua formulação mais conhecida. No livro I da Ética a Nicômaco, ele define a eudaimonia como a atividade da alma de acordo com a areté, ao longo de uma vida completa, e lembra que uma andorinha não faz verão, nem um único dia faz alguém feliz. No livro II, explica como se chega lá. As virtudes de caráter não nascem conosco nem contra a nossa natureza. Elas se formam pelo hábito. Você se torna justo praticando atos justos e corajoso praticando atos corajosos.
A psicologia contemporânea retomou essa distinção. Richard Ryan e Edward Deci separaram duas tradições de pesquisa sobre o bem-estar. A tradição hedônica estuda o prazer e a satisfação. A tradição eudaimônica estuda o sentido, o crescimento pessoal e a realização do próprio potencial. O modelo PERMA de Martin Seligman, que discuto no artigo sobre propósito e sentido, também foi construído sobre essa ideia de florescimento.
A distinção que Platão fez nas Leis descreve bem boa parte da educação corporativa atual. Programas que ensinam negociação, finanças ou ferramentas de gestão sem perguntar a que essas competências servem formam profissionais mais hábeis, e não necessariamente pessoas melhores. A paideia propõe outra ordem de prioridades. A técnica importa, mas está a serviço do caráter, e o caráter está a serviço do bem comum.
Três ideias gregas me parecem especialmente úteis para quem forma líderes. A primeira é a de que a formação é contínua e não termina com o diploma, exatamente como Salis descreve os simpósios que acompanhavam o cidadão por toda a vida. A segunda é a de que o caráter se forma pelo hábito, e por isso a cultura de uma empresa educa mais do que qualquer treinamento. Um líder que pratica a justiça todos os dias ensina mais sobre justiça do que um módulo inteiro sobre ética. A terceira é a de que o tempo de pensar não é tempo perdido. A scholé era o lugar onde as pessoas aprendiam a conhecer a si mesmas e aos outros, e boa parte das organizações eliminou esse tempo das agendas de quem decide.
Ao planejar o próximo programa de desenvolvimento da sua equipe, ou o seu próprio, inclua uma pergunta ao lado das competências que serão treinadas. Defina que tipo de pessoa aquela formação deve ajudar a construir. Para os gregos, essa era a primeira pergunta da educação.
Aristóteles. Ética a Nicômaco. Diversas edições em português.
Hesíodo. Os trabalhos e os dias. Diversas edições em português.
Homero. Ilíada. Diversas edições em português.
Jaeger, W. (1986). Paideia: a formação do homem grego (A. M. Parreira, Trad.). São Paulo: Martins Fontes.
Platão. A República. Diversas edições em português.
Platão. Apologia de Sócrates. Diversas edições em português.
Platão. As leis. Diversas edições em português.
Rousseau, J.-J. Emílio, ou da educação. Diversas edições em português.
Ryan, R. M., & Deci, E. L. (2001). On happiness and human potentials: A review of research on hedonic and eudaimonic well-being. Annual Review of Psychology, 52, 141–166. https://doi.org/10.1146/annurev.psych.52.1.141
Salis, V. D. (2013). Ensaiando uma epistemologia do ócio. Revista do Centro de Pesquisa e Formação, Sesc São Paulo, maio de 2013, 19–27.
Seligman, M. E. P. (2011). Flourish: A visionary new understanding of happiness and well-being. New York: Free Press.